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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Papa, o aborto e outras miudezas

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Este texto é do Zé do Armarinho, que atende no balcão do blog Armarinho da Política, onde fornece "aviamentos da vida pública e outras miudezas mais". O aborto foi tema aqui no Café em Ser ou não ser contra: esta não é a questão.

BENTO XVI, O ÚLTIMO CABO ELEITORAL DE SERRA

A coisa é nojenta, repugnante. Sabendo de antemão a data e a hora do seu passamento político, Serra conseguiu mobilizar a TFP, a seção tupiniquim da Opus Dei e o clero católico reacionário para obter do ex-integrante da juventude nazista que hoje prega moral de batina branca em Roma e protege padres pedófilos, uma providencial sessão de conselhos a bispos do Maranhão afirmando que estes devem orientar politicamente os fiéis católicos.

Pois Bento XVI, "coincidentemente" a três dias de uma eleição em que o tema do aborto fulgurou pela boca da turma que clama pela volta da Idade das Trevas, fez estas declarações sob encomenda: "O vosso dever como Bispos junto com o vosso clero é mediato, enquanto vos compete contribuir para a purificação da razão e o despertar das forças morais necessárias para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Quando, porém, os direitos fundamentais da pessoa ou a salvação das almas o exigirem, os pastores têm o grave dever de emitir um juízo moral, mesmo em matérias políticas. (...) Quando os projetos políticos contemplam, aberta ou veladamente, a descriminalização do aborto ou da eutanásia, o ideal democrático - que só é verdadeiramente tal quando reconhece e tutela a dignidade de toda a pessoa humana - é atraiçoado nas suas bases. Portanto, caros Irmãos no episcopado, ao defender a vida não devemos temer a oposição e a impopularidade, recusando qualquer compromisso e ambiguidade que nos conformem com a mentalidade deste mundo".

Quem adivinhar o endereço das declarações do Papa ganha uma medalhinha de Santo Expedito, o das causas impossíveis.

Na verdade, as declarações acima corroboram a ação do bispo panfleteiro de Guarulhos, colocando gasolina no tanque do medievalismo de parte da Igreja Católica brasileira que fecha os olhos para os graves problemas de saúde pública decorrentes da prática do aborto em clínicas clandestinas que colocam em risco a vida das mulheres.

Para poupar trabalho, se herr Ratzinger quisesse, de fato, ajudar Serra, deveria enviar uma extrema unção à sua candidatura, que já está com o pé na kalunga há dias. Seria algo mais condigno com os ideais cristãos do que tentar se intrometer na eleição alheia.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Ser ou não ser contra: esta não é a questão

O aborto é uma discussão séria que está sendo reduzida a um embate eleitoreiro entre Serra e Dilma. O aborto acontece todos os dias, queiramos ou não, sejamos nós contra ou a favor. As mulheres fazem aborto há centenas de anos, é o método contraceptivo mais antigo, por muitos considerado mais seguro e menos prejudicial à saúde do que a pílula. Desde que feito por um médico e em condições adequadas, óbvio.

A discussão que precisa ser travada sem descanso é o que fazer para que as mulheres parem de morrer por abortar em casa, usando agulhas de tricô, ou em consultórios podres, nas mãos de açougueiros. Esta sim é uma questão séria, de saúde pública, para a qual todos, repito, todos os governos viram as costas.

Por medo de tratar de um assunto que envolve questões morais e religiosas e com isso perder alguns currais eleitorais e apoios financeiros de empresários conservadores ligados a igrejas poderosas, os governantes estão deixando milhares de mulheres morrerem todos os anos. O aborto clandestino é a quarta causa de morte materna no Brasil. Das 87 milhões de mulheres que sofrem todo ano no planeta com o peso de uma gravidez indesejada, mais da metade aborta. Das 46 milhões de mulheres que optam por abortar, 18 milhões o fazem em condições precárias, de forma insegura, insalubre, porque não têm recursos próprios e porque não há amparo legal para que esse procedimento seja realizado em hospitais públicos. Dessas 18 milhões de mulheres abandonadas por seus governantes, 70 mil morrem, ou no momento do aborto ou por infecções consequentes. São dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), não foram inventados por mim, e são baseados em abortos relatados - o número concreto de abortos clandestinos ninguém sabe.

Grande parte dessas mulheres aborta porque já tem filhos e não pode arcar financeiramente com mais uma vida, especialmente nesse novo mundo em que as mulheres se tornam cada vez mais as provedoras do lar. Estas deixam órfãos, pra completar a desgraça. Enquanto políticos demagogos e fanáticos religiosos discutem se é criminosa ou não a interrupção de uma vida embrionária, milhares de crianças estão perdendo suas mães para o aborto clandestino. Mães que são tratadas como criminosas pelo poder público, quando deveriam ser amparadas e orientadas.

E agora, Zé? E agora, Dilma? Quais são seus planos pra evitar o assassinato dessas milhares de mulheres brasileiras, essa chacina que acontece anualmente nas barbas dos nossos governantes? O que vocês propõem para estancar o sangue de milhares de ex-rainhas do lar, hoje chefes de família apavoradas e desamparadas?

Esta é a minha questão, e é urgente.
nonono